Mitos da GB - Armandinho Macêdo
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Nascido no coração de uma linhagem que ajudou a moldar a identidade sonora do carnaval baiano, Armandinho Macedo cresceu cercado por instrumentos, invenções e histórias que transformariam a música popular brasileira. Filho de Osmar Macedo, um dos criadores do trio elétrico ao lado de Dodô, Armandinho herdou não apenas a tradição musical da família, mas também o impulso pela experimentação. Desde cedo conviveu com o cavaquinho eletrificado criado pelo pai, instrumento que daria origem à guitarra baiana, e absorveu naturalmente aquela mistura entre técnica, ousadia e espírito popular que definiria toda a sua trajetória.
Em entrevista concedida ao jornalista e escritor Eugênio Martins Júnior, Armandinho relembrou que o ambiente doméstico era profundamente musical, embora marcado por contradições. Sua avó tocava bandolim, a tia liderava um grupo feminino de cordas no interior da Bahia e Osmar dedicava a vida à pesquisa sonora. A mãe, porém, via a música com desconfiança, acreditando que ela havia desgastado o casamento com o marido. Por isso, o jovem Armando — nome que mais tarde o pai transformaria artisticamente em “Armandinho” — cresceu tocando escondido, aproveitando momentos em que algum instrumento ficava esquecido pela casa.
A morte precoce da mãe, quando ele tinha apenas oito anos, alterou profundamente sua vida. Passou a morar com a avó e a tia, aproximando-se ainda mais do pai, que finalmente começou a ensiná-lo de forma sistemática.
O aprendizado revelou um prodígio. Segundo o próprio músico, em apenas uma semana já conseguia executar “Vassourinha”, clássico do frevo, e poucos meses depois estava apto a integrar um pequeno trio elétrico montado especialmente por Osmar. O pai logo percebeu que o filho não apenas reproduzia sua técnica, mas também desenvolvia uma personalidade musical própria.
A história de Armandinho se confunde com a própria evolução da música elétrica brasileira. Enquanto acompanhava o crescimento do trio elétrico nas ruas de Salvador, ele testemunhava o desenvolvimento tecnológico promovido por Dodô e Osmar: captadores artesanais, instrumentos de corpo maciço, amplificadores improvisados e sistemas alimentados por baterias automotivas. Aquela experiência pioneira transformaria definitivamente a sonoridade carnavalesca baiana e abriria caminho para novas linguagens musicais.
Na adolescência, Armandinho viveu outra revolução estética. A chegada dos The Beatles, seguida por guitarristas como Jimi Hendrix e Carlos Santana, ampliou radicalmente seus horizontes. O músico passou então a fundir a base do frevo, do choro e da música nordestina com a linguagem do rock, criando uma abordagem inédita para a guitarra baiana. Em suas palavras, foi a sua forma pessoal de tropicalismo: transformar a música brasileira em uma
“música do mundo”.
Ainda muito jovem, chamou atenção nacional ao participar do programa “A Grande Chance”, apresentado por Flávio Cavalcanti. Preparado pelo pai, apresentou arranjos que misturavam choro, marcha e frevo, impressionando jurados e plateias tanto em Salvador quanto no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Embora tenha conquistado o segundo lugar, a apresentação consolidou seu nome como um dos grandes talentos instrumentais de sua geração.
Nos anos 1970, Armandinho aprofundou a eletrificação de sua linguagem ao lado de músicos ligados aos Novos Baianos e, posteriormente, no grupo A Cor do Som. A banda tornou-se símbolo da experimentação musical brasileira do período, unindo frevo, rock, jazz fusion e música psicodélica em composições marcadas por virtuosismo e liberdade estética. Ao lado de músicos como Mu Carvalho e Dadi Carvalho, Armandinho ajudou a criar uma sonoridade singular, conectando o instrumental brasileiro às tendências internacionais sem abandonar suas raízes nordestinas.
Foi também nesse período que consolidou a nomenclatura “guitarra baiana”, expressão que passou a identificar definitivamente o instrumento derivado do cavaquinho eletrificado criado por Osmar. Posteriormente, o músico ampliou suas experiências técnicas ao desenvolver modelos de cinco cordas e ao idealizar o bandolim de dez cordas, tema que surgiu de maneira delicada e enfática durante a entrevista.
Armandinho revelou certo ressentimento pelo fato de Hamilton de Holanda nunca ter reconhecido publicamente sua influência na criação do bandolim de dez cordas. Segundo o relato, Hamilton conheceu um protótipo do instrumento em sua casa ainda nos anos 1990, antes de desenvolver a versão que o tornaria internacionalmente conhecido. Embora tenha ressaltado a admiração pelo talento do músico brasiliense, Armandinho lamentou a ausência de crédito histórico à sua pesquisa pioneira. Eugênio Martins Júnior registrou o episódio apenas como depoimento do entrevistado, preservando o tom memorialístico e documental da conversa.
Ao longo da carreira, Armandinho também construiu diálogos marcantes com nomes como Raphael Rabello e Yamandú Costa, aproximando o choro das improvisações do jazz e expandindo os limites da música instrumental brasileira. Mais recentemente, uniu-se ao guitarrista Eric Assmar no projeto “Assmar & Osmar”, espetáculo que aproxima o blues contemporâneo da tradição elétrica baiana e reafirma a vitalidade criativa do músico aos 72 anos.
Durante a entrevista, Armandinho repetiu duas vezes a expressão “música do mundo”, conceito que sintetiza sua visão artística: uma música brasileira aberta às influências globais, mas profundamente conectada à própria identidade cultural. Ao final da conversa, voltou a defender a importância do reconhecimento histórico das invenções ligadas ao trio elétrico e à guitarra baiana, comparando sua luta pela memória musical ao permanente debate sobre os verdadeiros pioneiros das grandes invenções mundiais. Para ele, preservar essas narrativas não é apenas uma questão de vaidade pessoal, mas de justiça cultural e histórica.
Texto baseado na materia de Eugênio Martins Júnior


































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